Monthly Archives: Julho 2009

Palestina

Seríamos o que quiséssemos. Passos enlameados,
Mãos robustas cavando trincheiras, lágrimas de fome,
Explosões ensurdecedoras.

Seríamos o que quiséssemos. Bulldozers destruindo-nos casas,
As nossas irmãs violadas, os pais torturados, uma pedra na mão.

Seríamos o que quiséssemos. O desespero de quem perde
O que já nada tem a perder, olhos de raiva –
Rostos de sangue.

Seríamos o que quiséssemos. Se a liberdade fosse nossa.
Explosivos humanos. Carne de revolta.
Nada.

Seremos as searas livres, e parte dos sorrisos,
Dos olhares daqueles que as percorrem,
Que serão o que quiserem na sua pátria:
Palestina.

(Escrito em 2005)

pedrobala

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Corto Maltese

Deleitava-se graciosamente sob as luzes trémulas do cais e açambarcava o imaginário das velas dos barcos maravilhado com os fogo-fátuos. Podia ser tudo, até um marinheiro de barba rija, desgrenhado e desencontrado. Ele mesmo.

Recordava-se do tempo em que o mundo girava em sentido contrário a uma velocidade alucinante. Os dias sucediam-se ao ritmo de piscar de olhos e ele, sentado, admirava cada pôr-do-sol com o mesmo brilho com que engolia cada nascer-do-sol. Lá fora os cabelos esvoaçavam e ninguém se preocupava com o tempo.

(Escrito em 2004)

pedrobala

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Bagdade

Não chores Bagdade
Que as lágrimas doem
E o fogo da bala não derrete
O medo.

Não te rendas Bagdade
Que o gemido dos teus combatentes
É sangue de quem morre
De pé.

Não feches os olhos Bagdade
Que nas tuas ruas
O sol não volta a nascer para
A barbárie.

A hora chegou. Madrugada. As últimas estrelas da noite testemunham a rebeldia de todo um povo que se liberta. Sombras viradas para Meca, não por Alá mas pelas kalashnikovs que vigiam o inimigo. Manhã. O ianque navega em tanques de aço. Tarde. Já toda Bagdade se ergue em ebulição. Cada rua e cada bairro é um país. Noite. As estrelas cadentes, já livres, expiram cravos vermelhos e iluminam-te, Bagdade.

(Escrito em 2004)

pedrobala

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Liberdade

Antes de nascer, o meu nome era sussurrado nos becos escuros dos subúrbios operários. Ali, sonhavam-me no pensamento clandestino. Os homens e mulheres de faces sulcadas pelo esforço, de mãos calejadas pela aspereza das máquinas, de pulmões rasgados pela fuligem sorriam-me. Pela noite dentro, as mesmas faces, as mesmas mãos, os mesmos pulmões enchiam as traseiras da taberna. Havia quem lhes chamasse agitadores, terroristas, havia quem visse neles a chama mais acesa do povo.

Creio que foi por essa altura que resolveram dar uma existência organizada à luta contra a injustiça. Quando imprimiram o meu nome nos jornais produzidos na velha tipografia escondida dos olhos da polícia, a realidade endureceu. Vieram as greves e as manifestações. Vieram as prisões e as torturas. As mães dos operários encheram os cemitérios ao Domingo. Como um grito vermelho na noite escura, os cravos resistiam nos seus fatos enlutados. Muitos tombaram por não revelarem o meu nome. “Filho da puta comunista!”, saía dos peitos encharcados de ódio dos carcereiros. Depois a tortura do sono até à exaustão. O cavalo-marinho. As beatas apagadas nos mamilos. Os eléctrodos nos genitais. A asfixia por afogamento na banheira.

As contracções surgiram em catadupa. Ninguém esperava a torrente que desabou em Primavera antecipada. O parto durou toda a madrugada. Nasci sob os disparos das mãos calejadas dos trabalhadores. A barriga do povo expulsava-me do seu ventre. Violentamente, arrancada a ferros, deram-me à luz. Um rio de sangue manchava as largas avenidas da história. Respirei pela primeira vez o leve odor a felicidade e chorei nas faces de todos os que por mim perderam a vida. Sujeito do seu próprio caminho, o povo tomara o poder.

Naquela manhã o silvo agudo das sirenes da fábrica soava diferente. Já não despertava a tristeza. Uma imensa alegria invadiu aqueles peitos sofridos. Nas cidades, nas ruas e nos becos todos me gritavam o nome. O meu doce nome que tão pouco tempo saborearam.

Morri. Desfiz-me no fumo que cospem as chaminés das fábricas. Quando ouço rumores entre as fachadas sujas dos prédios recordo-me de ti. Os megafones ressoando velhas canções revolucionárias e os nossos punhos em uníssono. Não esqueço a triste noite que se levanta sobre os cravos vermelhos de outrora. Contudo, passos distantes caminham no vento e propagam-se no infinito da história. Ao som dos operários que dominam a natureza e erguem todo um mundo novo. Melodia que sussurra como a semente de revolta de quem labuta o aço e cospe no prato da reacção. Somos todos os mortos que já não são teus. Uma tempestade que aguarda o futuro e encontra eco nos gritos dos que lutam pelo meu nome,

Liberdade.

(Escrito em 2005)

pedrobala

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