Sérgio Alves Moreira

Há rios que não acabam no mar. Desaguam-nos na memória. E mesmo que tentemos nadar, afogamo-nos. Sérgio Moreira é um desses rios. Caudaloso, espesso e que arrasta tudo consigo. Podia ter sido um grande jornalista. Mas teve de fugir do país. Podia ter sido um bem sucedido professor de Filosofia. Mas havia outras prioridades e abandonou o ensino. Podia ter sido um guerrilheiro conhecido. Treinou o comando que executou o primeiro sequestro político da história a uma embarcação. Mas não participou na acção. Podia ter sido secretário do Humberto Delgado. Mas não foi. E o controverso general caiu em Villanueva del Fresno. Podia ter sido um famoso escritor. Mas as suas palavras permanecem embalsamadas em milhares de páginas. Como se nunca tivessem sido escritas. No fundo, não foi nada, como todos os que lutam por uma causa maior do que eles. Tão grande que cabem todos os explorados e oprimidos do mundo. Por isso, não sendo nada foi tudo.

E é também por isso que o pó dos livros me desagua na memória. A tentação de espirrar é quase tão grande como a de imaginar que o Sérgio está aqui. “Tenho uma coisa para si”, diz-me. Pousa o cigarro no cinzeiro e, sem mapa nem bússula, atravessa o mar de desordem em que se encontra a livraria como um marinheiro experimentado. Enfrenta a tempestade e resgata um livro do caos. Senta-se e pressente-se, na voz conspirativa, que estamos perante algo importante.  Abre a página 36 e lê: “Los mineros/también tienen derecho/a ser medio poetas/como los poetas/a tratar de tú el sol/y a mezclarlo en el asalto/de más pan y sueño”.

“De quem é?”, pergunto. “Agora, é teu”. Abre a primeira página e escreve: “Para Bruno. Nos caminhos solidários, na luta pela sociedade igualitária. Sérgio, em Caracas, a 30 de Outubro de 2008”. E, na capa, o nome do autor do autor surpreende-me. “Sérgio Alves Moreira”. Ou não. Ou então não nos surpreende que para si o mais importante não é que seja reconhecido mas que possa dar o seu humilde contributo para a transformação do mundo.

Não raras vezes, apanhei-o a discutir com clientes. Vale a pena ler o episódio vivido por Lautaro Sanz. “Numa oportunidade, por exigência da disciplina de filosofia Praxis II, solicitei ao velho Sérgio um livro de Mario Bunge. O Sérgio chateou-se e ralhou-me. Pediu-me que não lesse uma coisa daquelas. Que era uma vergonha que a juventude perdesse tempo a estudar esse farsante. Procurou o livro, abriu uma página ao calhas e leu um par de linhas. Naturalmente, não percebi nada. Quando terminou, focando-me, disse: ‘Viste? Puras mentiras’.”

Noutra vez, segundo conta, o Sérgio recebeu uma chamada e respondeu em português. Durante meia hora, ouviu-se uma violenta discussão. Alguns clientes, fartaram-se de esperar e abandonaram a livraria. Ficou Lautaro Sanz que folheava um livro ao acaso. Interessava-lhe mais aquela personagem real que as dos livros. O Sérgio deixou cair o auscultador sobre o telefone. “Esta gente não entende”, disse, “sempre a convidar-me para ditar conferências em Lisboa. Não quero ditar nada”. Cobrou um dos livros escolhidos por Lautaro e devolveu o troco. Sorriu e disse: “Desde que deram o Nobel ao Saramago, Portugal não é o mesmo. Perdemos a humildade”.

pedrobala

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