Monthly Archives: Novembro 2009

Um cão morto na estrada

Abracem-me, esfaqueiem-me…
Podre que estou não vos quero em nada, para nada!
Eis que chego onde me trouxeram…
De mortalha estendida que me cobre inteiro.
Mas mexo…cuidado que ainda mexo!
Que se fodam todos!
Deixem-me espernear em escarros o fim.
Filhos da puta.
Contorço-me…
Claro, que me inunda a alma bruta uma noite que vem eterna.
E a vida, a vossa vida seus merdas?
Lacinhos, coroas e lágrimas que sou bonzinho no adeus.
Boa noite e um queijo…
Que se riam agora da minha cultura estética que não harmoniza as camisolas com a cor das meias rotas…brancas, fétidas, tal qual o afio da língua de onde me saltita…
Que se fodam todos!
Ai…que é bem, que é mal, coçar o cú e comer rissóis, mijar sem lavar as mãos, o gosto por peidas grandes, os paneleiros, as putas, os drogados, todos os pervertidos do cozido á portuguesa que arrotam biscas dos três no embriago que renuncia aos tiques graciosos dos arredores classe média.
Que se fodam todos!
Os escritores embalsamados em tiques quinhentistas, engomados na gramática, que amestra a semântica em ovinhas de caviar e champanhe marca cifrão.
Eu quero é futebóis, arraiais ao virar da esquina, bailes de verão na paróquia e guardanapos gordurosos a dizer “amo-te Rita”, com o número tal, tal!
Abracem-me, esfaqueiem-me…
Podre que estou não vos quero em nada, para nada!
Que se fodam todos!
Que o amor é universo…
Sodoma e Gomorra!!!
Nós todos no inferno a desfrutarmos o apocalipse num festim de bacanais á mistura com tremoços, sovacos cheios de pêlo e cervejas coisa e tal…frescas, loiras, pretas, indianas e gajos a jogar á bisca no alguidar da feijoada enquanto cortam as unhas cheiinhos de tesão…
Agora sem renuncias, um pires de caracóis!
Que se fodam todos os ranhosos!
Os supermercados chiques, os centros comerciais e os bares que fazem moda em anúncios “very ligth’s”, os intelectuais, os autodidactas e os concursos “quiz show” com funcionários públicos a acertarem em Cancun, nas Baamas e num automóvel grande que dá para a família toda, sogra e putos incluídos!
Onde é bom é na feira, com couratos e pingados, fatos a tuta-e-meia e t’shirts a cinco euros!
Ali, no epicentro do barulho, perguntas e respostas que começam no Benfica e acabam á facada…
Acertam todos, os ciganos a gritar a polícia a apitar, e os trolhas a comprar bermudas que dão viagens ao paraíso… em Carcavelos!
As cassetes as carcaças, as nabiças e os nacos, o torresmo e a azeitona com batata nova á saca de uma velha saloia que vende a horta inteira aos nabos da cidade!
Venha a música, o fado e o popularucho, com as tias de esquisito no “Versace” a perguntar:
“-Quanto é?”
“-Cinco euros oh freguesa…é artigo de marca, não encontra no chinês!!!”
Que se fodam todos!
Os ginásios e afins, aminoácidos, anabolizantes, complexos vitamínicos, dietas sazonais, que me babo a olhar as cuecas das mulheres-a-dias ajoelhadas nas escadas dos meus vizinhos, que me olham de soslaio enquanto coço os colhões!
Que se fodam todos…os poetas de régua e esquadro, que esta merda da poesia é geometria variável sem regras e sem gravatas.
Abracem-me, esfaqueiem-me…
Podre que estou não vos quero em nada, para nada!
Eis que chego onde me trouxeram…
De mortalha estendida que me cobre inteiro.
Mas mexo…cuidado que ainda mexo!
Que se fodam todos!
Que me fodam todo!
Que me inunda a alma bruta uma noite que vem eterna…
E há-de chegar a hora, que nos vai foder a todos!!!

PS:Estava um cão morto na estrada e uma Romena a vender a pensos.

Vlad

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Balada dos pés descalços

Vou começar uma revolução.

Só andar com os pés na rua…

Descalços como em sangue,

de ser…

No ápice dos momentos, força e aço contra um deus embalsamado.

Depressa…em mim, como um Violino a acender,

Cedros assombrados numa ária de agonia tocam prantos e revolta eminentes como o impacto.

Assim irei com os pés pela rua toda.

Descalço…porque está a acontecer, como o grito…

Num amanhecer cristal no relâmpago do ódio.

Agora, Harpas assassinas, degolam apoquentadas súplicas dos Arautos da traição.

O criador no banco dos réus…sem escusa.

Culpado da História e do crime, da perfídia da exploração…

Culpado pelos julgamentos injustos consumados debaixo do céu dos homens.

Milhões de pés na rua…

Descalços como em sangue,

de ser…

no momento dos momentos a humanidade em grito.

Ânimo, peito e luta.

E tornará um Violino, agora ferido e lacrimogéneo a uivar martírios do que está para partir.

A orquestra dos justos,

na sinfonia da terra em chamas crepitam-me cá dentro…

Vou começar uma revolução.

Quem nunca pecou?

Estou aqui… despido e frio, a atirar a primeira pedra porque as lajes das calçadas,

são balanças de justiça que alargam a liberdade aos homens.

Comigo milhões…

E virão Flautas mágicas, cegas para me encantar, Cítaras sombrias a dedilhar contradições,

Pianos vestidos de luto a reclamar tudo e o silêncio.

Assim irei com os pés pela rua toda.

Descalços como em sangue,

de ser…

O timbre de um novo dia, que deslaça a escravatura,

do tronco escurecido dos cedros assombrados.

Os séculos como um baralho a implodirem na avareza,

caírão aos pés daqueles que tatuaram a sangue cemitérios de coragem.

Toda a música do universo, é já o som de um Cravo…

em milhões de pés descalços…

Assim irei com os pés pela rua toda.

Descalços como em sangue…

Nada nos resta que não a luta…anda!

Vou começar uma revolução.

 

Vlad

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Pintura para um pântano

Atracado na lama escorregadia dos corgos
Que íntima penúrias neste corpo que vivo
Onde compassa o segundo que me enterra em desprezo
Esbracejo na lágrima num resvalo de limo
Porque ódio, passas de luto em mim
Se em luta me dou como uma pérola de nervo
Como uma furna de suor em ebulição
No gemido da força do sangue onde fervo
Há mortalhas de protesto submersas nos pântanos
Que flutuam no leite atraiçoado do limbo
Fatos de ganga com o fumo nas mangas
Que mergulham o grito num silêncio de tinto
Sonolentos cartazes de fábricas mortas
Em desespero como em dor anestesiadas
Plantam nas margens dos abismos de lodo
Horas extras etílicas hipnotizadas
É na robustez das agruras onde me afundas
Que á greve e á fome, não me falta a água
Alimenta o meu corpo de marés bravias
Que explodirão nas ruas numa granada de mágoa
Profunda é a ferida do homem dos pântanos
Carne viva de lava e fraternidade
Nos atoleiros sombrios onde me queres
Sou casulo dos homens em maternidade
Assim encharcado de musgo e razão
Estrebucho em pingos de suor cristalino
Que há-de drenar cisternas de injúria
No alcatrão que transpira o labor citadino
Espezinhados aos milhões como fósseis de gente
Talvez assim porque entendemos
Que enterrados na lama da vida madrasta
Escorregamos sem força, mas não nos rendemos!

Vlad

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África

Sou eu quem caminha nos teus campos de mochila carregada de sonhos, passos descalços, olhos de savana e sorriso de barro. Se és mãe, desconheço-te como filho. Mas se bastar o meu cheiro, África, deixa-me recostar nas tuas costas lambidas pelo mar salgado como as lágrimas dos irmãos deportados para campos de café. Deixa-me também ser mar e lamber-te as feridas que tardam em partir. Deixa-me ser a brisa que raspa o barro do capim molhado e o sangue negro dos braços enlutados. Deixa-me ser cor, contraste e tela. Deixa-me ser África.

pedrobala

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